Toca a vida…

Dê-me um violão e eu farei brotar vida no entrelaçar das cordas. Dedilho meus passos rumo ao acorde perfeito, rumo ao ritmo certo, batida do coração. Entrelaço as cenas como fios de nylon. Suavemente um som se produz. Sinto que meu interior sintoniza com a mágica da harmonia, sinto que minha melancolia se derrama em melodias. Pareço dormir sobre os acordes.

É a vida que brota do som. É a música que nasce da vida. É o canto que da vida a voz. É a voz que tira a letra da morte.

Tocando e cantando a vida eu vou…

Canção em vida, vida em partes

Sou um ser humano inteiro quando compreendo, ainda que em partes, as partes que me compõe.

Sou como canção: minha introdução cria expectativa; a dinâmica ainda é calma.

Quando me é dada a luz, as primeiras estrofes revelam os primeiros traços de vida, como as primeiras linhas de um desenho.

Então eu cresço e quero me conhecer. As linhas vão ganhando um formato jamais visto, tudo ganha mais cores. Mas meu real sentido ainda demora a ser descoberto.

Chego ao refrão dos meus dias neste mundo. Onde meu caráter se revela e encanta e todo mundo canta o que em mim se repete. E alguns me julgam pelo que sempre faço. Outros me escutam por inteiro.

Volto, enfim, a enfrentar momentos diferentes, de mais ou menos tensão. Dias de surpresas, estrofes que compõe humores e criam rumores do que sou capaz. Mas logo me repito “estribilhosamente” nos mesmos erros, nos mesmos sorrisos, nas mesmas dores, nas mesmas expressões. No mesmo refrão.

A última estrofe. Preparando o momento ápice, começa a se construir o clímax. Quero saber o que o Autor me prepara ainda que nos últimos segundos de música. Vivo intensamente com todos os instrumentos que fui adquirindo ao longo da história. Com retumbantes vibrações, arrepio.

Vem o último refrão. Provando que, por mais que o tempo passe, guardo em mim a essência que pelo Autor me foi dada. Revelo que sou a mesma criança, o mesmo adulto, ainda que já muito cantado e repetido, há sempre um verso novo a ser mostrado.

No momento máximo de minha execução. Minha bateria acaba dando a última pratada. O silêncio invade os espaços acústicos da alma dos que me acompanham. Onde passo a ser cantado e refletido na eternidade dos corações que comigo conviveram e que agora relembram estrofes e refrão de minha vida. Porém, ainda que venham me esquecer, o Autor canta eternamente minha existência. Com voz doce e tenra de quem sonhou comigo desde os primeiros acordes da introdução à mais repetida palavra do último refrão.

Lucas Francisco