Vai, frio.

O frio chegou.

Veio sem rima, sem poema, sem canção.
Veio sem som qualquer.

Não trouxe uma novidade, uma palavra amiga.
Nem notícia ruim.

Apenas veio.

E como um velho e conhecido alguém, sentou do meu lado como se apenas no olhar pudesse saber tudo o que eu não estou passando. E veio gelar meu coração, diminuir meu pensamento, meu ritmo, meus passos. É quase uma prisão interior.

Eu não lhe ofereci comida alguma, apenas uns remédios. Talvez um chá ou outro. Mas nada que curasse o vazio e a interrogação.

O frio me olha estranho. É um olhar redundantemente gelado, que não diz nada, mas pergunta tudo.
Como se eu tivesse resposta…

As vezes eu ponho um cachecol azul, uma jaqueta preta, uma blusa marron, pra ver se ele percebe que eu preciso continuar meus afazeres e se retira. O máximo que ele faz é olhar pela janela vendo os carros passarem.

Outro dia pensei que ele também quisesse ir embora, até sonhei que eu o pedia claramente que se retirasse.

Sonho besta…

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