Canção em vida, vida em partes

Sou um ser humano inteiro quando compreendo, ainda que em partes, as partes que me compõe.

Sou como canção: minha introdução cria expectativa; a dinâmica ainda é calma.

Quando me é dada a luz, as primeiras estrofes revelam os primeiros traços de vida, como as primeiras linhas de um desenho.

Então eu cresço e quero me conhecer. As linhas vão ganhando um formato jamais visto, tudo ganha mais cores. Mas meu real sentido ainda demora a ser descoberto.

Chego ao refrão dos meus dias neste mundo. Onde meu caráter se revela e encanta e todo mundo canta o que em mim se repete. E alguns me julgam pelo que sempre faço. Outros me escutam por inteiro.

Volto, enfim, a enfrentar momentos diferentes, de mais ou menos tensão. Dias de surpresas, estrofes que compõe humores e criam rumores do que sou capaz. Mas logo me repito “estribilhosamente” nos mesmos erros, nos mesmos sorrisos, nas mesmas dores, nas mesmas expressões. No mesmo refrão.

A última estrofe. Preparando o momento ápice, começa a se construir o clímax. Quero saber o que o Autor me prepara ainda que nos últimos segundos de música. Vivo intensamente com todos os instrumentos que fui adquirindo ao longo da história. Com retumbantes vibrações, arrepio.

Vem o último refrão. Provando que, por mais que o tempo passe, guardo em mim a essência que pelo Autor me foi dada. Revelo que sou a mesma criança, o mesmo adulto, ainda que já muito cantado e repetido, há sempre um verso novo a ser mostrado.

No momento máximo de minha execução. Minha bateria acaba dando a última pratada. O silêncio invade os espaços acústicos da alma dos que me acompanham. Onde passo a ser cantado e refletido na eternidade dos corações que comigo conviveram e que agora relembram estrofes e refrão de minha vida. Porém, ainda que venham me esquecer, o Autor canta eternamente minha existência. Com voz doce e tenra de quem sonhou comigo desde os primeiros acordes da introdução à mais repetida palavra do último refrão.

Lucas Francisco